Euritmia curativa

O que é a Euritmia?

A arte da Euritmia torna visível tanto a palavra falada como a música, através de movimentos executados pelo corpo, como instrumento. Na época presente, tem-se perdido muito da riqueza da palavra falada. Sabemos que a Palavra pode Ter muita força; a sua agudez pode ferir, a sua suavidade pode confortar ou expressar simpatia. Há leis concretas que regulam a linguagem falada. Para além do ritmo e da ênfase de uma frase, e da sua construção gramatical, as vogais expressam, pelos seus atributos sonoros uma qualidade do sentir. Qualquer um de nós sabe que quando se magoa, expressa a sua dor com “au” ou “ai” e quando canta, o faz utilizandoas vogais. As consoantes, são na sua essência, formativas;
emprestam, por assim dizer, contorno às palavras.

A arte da Euritmia incorpora estes vários elementos, e torna visível, através do movimento do corpo, a qualidade inerente à palavra falada. Consideremos, por exemplo a vogal “A” como uma Árvore, que expressa admiração e espanto; em Euritmia, traduz-se por um movimento de abertura dos braços. O “I”, por exemplo, como um Brilho, traduz-se por um movimento de “esticar” um braço dirige-se para as alturas, enquanto o outro para as profundezas. A vogal “O” como em Amor, traduz-se por um movimento dos braços que se fecha, que abraça, que forma um círculo fechado.

As consoantes, embora com um papel na linguagem totalmente diferente do das vogais, também podem ser expressas em Euritmia. Se escutarmos bem as consoantes “B”, “L” ou “S”, em breve descobrimos que independentemente do significado das palavras nas quais estão inseridas, o valor qualitativo de cada uma destas consoantes é muito diferente. Nas palavras “barco, berço, bilha, balão”, todas começadas por “B”, a qualidade essencial desta consoante fica bem expressa: protecção, criação de um espaço interior. O “L” (tal como se expressa em “leveza, luminoso”), revela bem as suas qualidades de vida e crescimento. E finalmente o “S” (como em “serpente, solene”) expressa uma atmosfera de poder silencioso. Estes elementos expressam-se nos movimentos destes sons.

Uma pergunta óbvia é porque que é que nem todas as palavras contêm estessons incorporam estas qualidades especificas? Resumindo, podemos dizer que as diversas línguas evoluíram de uma raiz comum. Na sua evolução própria, foram-se diversificando, e neste processo, só algumas palavras em cada língua diferente preservaram em si uma certa concordância entre significado e som. Neste contexto é fascinante comparar as mesmas palavras em línguas diferentes, e assim descobrir, por exemplo, como povos diferentes dão ênfase a aspectos diferentes do mesmo objecto, pela escolha dos sons da palavra que o descreve. Vejamos por exemplo a palavra “Árvore” que é, digamos equivalente ao inglês “Tree”, ao francês “Arbre” ou ao alemão “Baum”. É evidente que “Tree” dá ênfase ao aspecto da verticalidade, do seu vigor, enquanto “Baum” sugere formas arredondadas e empossantes. “Árvore” e “Arbre” dão-nos uma sensação de algo mais delicado, leve, dançando ao vento.Línguas diferentes são também expressão de diferentes maneiras de pensar edemonstrar diferentes atitudes interiores.

Na poesia, mais ainda que na prosa, a linguagem é elevada a uma expressão puramente artística. Não só o conteúdo e as palavras são importantes, como também elementos como o ritmo, a rima, a cadência. Através da Euritmia, os sons, o ritmo e a “atmosfera” de um poema podem tornar-se visíveis. O/A Euritmista combina os gestos de cada som com liberdade artística de expressão. E aspectos líricos, dramáticos ou épicos são concretizados de modo diferente. Temas humorísticos são também interpretados em Euritmia. É na Grécia antiga que podemos constatar a origem de duas formas artísticas fundamentais - a Apolínica e a Dionisíaca. A primeira tem um carácter objectivo, é clara e transparente; a segunda é subjectiva, jorra das profundidades da natureza volitiva do homem. Estes dois princípios artísticos são expressos em estilos coreográficos diferentes. De facto, a Euritmia, tal como todas as artes, não tem um carácter arbitrário, mas sim é baseada numa disciplina complexa. Formas e movimentos básicos têm de ser praticados e aprendidos, e só após anos de intenso trabalho a/o Euritmista pode chegar a uma interpretação artística de um poema ou de algo em prosa. O corpo humano tem de ser transformado, por assim dizer, num instrumento flexível para esta nova arte. A Euritmia é também “Música tornada visível”.

A música instrumental pode também ser assim interpretada. Rudorf Steiner criou movimentos específicos para as notas musicais, os intervalos, acordes, modos maior ou menor, e deu indicações para a expressão de ritmo, melodia e harmonia. Aqui, de novo, temos forma e conteúdo, e a/o Euritmista terá de expressar ambos adequadamente. Pode assim aprofundar-se a vivência através da Euritmia tonal. Em todos os gestos, a ênfase é posta no movimento dinâmico em si e não na posição final dos braços, e esta pode ser uma base para a distinção entre a Euritmia e outras formas artísticas de movimento. Nos espectáculos de Euritmia, a cor das vestes, os efeitos luminosos ou a qualidade da declamação dos poemas ou da interpretação musical, têm um papel importantíssimo na criação da “atmosfera” anímica pretendida. O efeito visual total desta arte de palco é difícil de descrever em palavras; mas sem dúvida que os que já tiveram esse privilégio, sentem que há um grande potencial nesta arte de movimento, para o futuro. A música e a palavra são elevadas a uma nova dimensão artística. A Euritmia devolve à música e à palavra o seu espírito intrínseco, tão ameaçado nos nossos tempos. Maria Fernanda Wessling ( Euritmista)

História

A Euritmia já existe como palavra desde a época clássica na Grécia. “Eurythmia”, foi definida (440 A.C.) como o equilíbrio de forças actuantes no corpo humano; eu – rhythmos – o ritmo equilibrado, belo e harmonioso. A Euritmia é uma nova arte do movimento desenvolvida desde 1912. Baseia-se no conhecimento do homem e do mundo como foi apresentado pela ciência espiritual de Rudolf Steiner, a Antroposofia. As obras básicas sobre a Euritmia, “A Euritmia como Fala visível” e “A Euritmia como Canto visível”, são as duas compilações de conferências, dadas por Rudolf Steiner sobre o tema.

A Arte

Ao falarmos modelamos o ar com os nossos órgãos da fala – laringe, boca, lábios. Esses movimentos foram ‘traduzidos’ em movimentos e gestos no espaço por R. Steiner.
Como arte, a euritmia torna visível a linguagem poética, musical e a prosa. Na linguagem poética existem vários aspectos que querem ser exprimidos alem da palavra falada – o ritmo, o sentimento, as imagens, atmosfera, o conteúdo específico expressado pelo poeta ou pelo compositor – tudo isso é apresentado na Euritmia enquanto arte.
A partir dos mesmos princípios foram criados os movimentos para a ‘euritmia - tonal’, baseados na música.

A Euritmia na Educação

A Euritmia foi iniciada na Europa do Norte, actualmente é praticada em quase todos os países do mundo. Em Stuttgart foi fundada a primeira escola Waldorf e a euritmia foi incluída no seu currículo como matéria fundamental. Actualmente existem cerca de 800 escolas Waldorf em mais de 40 países espalhados pelo mundo. Para além dos efeitos benéficos de coordenação, concentração e apoio à postura, a Euritmia ajuda a criança/jovem a desenvolver-se em equilíbrio e harmonia. Fortalece as iniciativas da vontade. Vivifica as forças vitais. E também apoia outras matérias ensinadas na escola.

Euritmia Curativa

A Euritmia como prática terapêutica é complementar ao tratamento médico. Na Euritmia artística o homem expressa pelos movimentos as leis interiores do som e do tom.
Na Euritmia curativa estes movimentos se transformam de tal maneira que actuam para a própria pessoa. Através dos movimentos corporais de sons, ritmos e formas, estimula-se e harmoniza-se o funcionamento físico, emocional e espiritual. Tem um efeito relaxante.
Pelo seu efeito abrangente, pode-se utilizar em diferentes tipos de patologias: orgânicas, neurológicas, posturais, musculares e psiquiátricas: p. ex.

  • Disfunção de um órgão
  • Depressão, stress
  • Tensões musculares (dores nas costas)
  • Reumatismo, artrite
  • Enxaquecas

E também em pediatria:

  • Distúrbios de desenvolvimento da motricidade
  • Dificuldades de aprendizagem, de concentração e de orientação espacial
  • Enureses nocturnas
  • Crianças hipercinéticas
  • Correcção da postura
  • Distúrbios do sono, etc.

 

Marije Grommers

Fez a formação na Akademie de Euritmia em Haia, Holanda, e o curso de Euritmia Curativa em Inglaterra. Trabalhou como euritmista em escolas Waldorf na Holanda e desde 1998 na Comunidade Sócio – Terapêutica da Casa de Santa Isabel em Seia. Actualmente trabalha com médicos, grupos e em
jardins-de-infância.

e-mail: euritmia@a-ama.com.pt
tel: 219618181 /  965642311

 

Maria Fernanda Weslling

 

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